segunda-feira, 18 de maio de 2015

A moral dos coitadinhos – Luiz Felipe Pondé

A moral dos coitadinhos – Luiz Felipe Pondé




A moral dos coitadinhos – Luiz Felipe Pondé



felipe-pondeA moral dos coitadinhos – Folha de São Paulo

Luiz Felipe Pondé

A democracia contemporânea tem como um dos seus eixos a crença num
contrato social baseado numa contabilidade de direitos. Todos querem
direitos. Existe uma fé muito clara de que o direito a qualquer coisa
que seja “é por si só um direito”.


Filósofos britânicos dos séculos 18 e 19, entre eles Edmund Burke e
Jeremy Bentham, integrantes do que a historiadora americana Gertrude
Himmelfarb chama de iluminismo britânico, suspeitavam que uma democracia
de direitos poderia levar à dissolução da relação entre direitos e
deveres. E, por aí, a uma dissolução da noção de responsabilidade moral.
Em termos contemporâneos, uma democracia de coitadinhos que pedem
direito a tudo.


Os britânicos colocavam essa separação entre direitos e deveres na
conta do delírio jacobino. A ideia dos britânicos era que se você
trabalha muito (dever), você tem direito ao descanso. Se você é corajoso
(dever), você tem direito à reverência daqueles que gozam da vida
graças à sua coragem. Se você cuida bem de sua família (dever), você tem
direito ao reconhecimento por parte daqueles cuidados por você.


Esses britânicos, que segundo Himmelfarb faziam uma sociologia das
virtudes, entendiam que direitos e deveres são objetos da moral e jamais
da política. Os jacobinos achavam que a política é que devia gerir os
direitos. Para os britânicos, ao tornar isso objeto da política, os
franceses eliminavam o fator esforço (dever) do ganho (direito).


Os franceses teriam inventado a ideia de que existem direitos
“inalienáveis” do homem, pelo simples fato de que são homens. Acho a
ideia fofa, mas continuo pensando como os britânicos: se dissociarmos
direitos de deveres, viramos bebês chorões que só sabem exigir direitos.


Dito isso, vamos ao caso dos coitadinhos de hoje, no espírito de uma
antropologia do ressentimento, a melhor ciência para compreendermos o
espírito contemporâneo. Vejamos o caso dos homens (gênero, não espécie)
que estão começando a reclamar dos deveres masculinos. Na base dessa
queixa está o bom e velho ressentimento.


Uma das demandas desses homens é o direito ao “aborto social”. O
termo é derivado de coisas como “nome social” para se referir a nomes
transgêneros (ou seja, aceitos pela sociedade, mas sem referência ao
sexo biológico, como uma menina que quer ser homem e passa a se chamar
Roberto em vez de Alice, seu nome de nascimento).


“Aborto social” refere-se ao direito dos homens recusarem legalmente a
paternidade de uma criança. Se o direito pega, o chamado “golpe da
barriga” acaba. Nem a mãe nem a criança podem pedir grana (que é o que
se pede, normalmente, em casos como esse, apesar de dinheiro não ser a
coisa mais importante do mundo…).


A verdade é que, hoje, muitos homens mais jovens se sentem
coitadinhos diante de mulheres superpoderosas. E já que as mulheres
podem abortar os filhos, biologicamente (poder único da mulher), os
homens reclamantes exigem o direito de abortar “socialmente” o feto.
Sinto cheiro de ressentimento e vingança nessa, você não?


Mas existem fenômenos mais “sofisticados”. Logo uma namorada vai
ouvir do parceiro: “Você deve buscar funções que remunerem bem porque eu
não estou disposto a arcar com o peso da obrigação de ser o provedor”.


E aí, meninas superpoderosas, o que fazer com esses coitadinhos que
não aguentam o peso e a solidão das obrigações? Nada a fazer, pois
cobrar do homem o papel de provedor é “opressão”, não?


Nada de ser professora de criança, nem de fazer artes plásticas, nem
de trabalhar meio período, nem de trabalho “como escolha”. Apenas a dura
obrigação de prover. O trabalho deixa de ser uma opção existencial e se
torna maldição cotidiana.


Claro que muitas meninas já vivem isso. Resta saber se estão
confortáveis nesse lugar. Sendo a mentira a base de grande parte do
pensamento público hoje, pouca gente tem a coragem de reconhecer a fria
em que se meteu.


Ninguém quer deveres, só direitos. Mas são os deveres que sustentam a
formação de vínculos; os direitos apenas geram demandas, por isso
servem para políticos e embusteiros.


Luiz Felipe Pondé, escritor, filósofo e ensaísta, é doutor em
Filosofia pela USP e professor do Departamento de Teologia da PUC-SP e
da Faculdade de Comunicação da Faap.


sexta-feira, 13 de março de 2015

Clipping Blog: Clipping Blog: ESTA É A HORA : 15 DE MARÇO , 2015,...

Clipping Blog: Clipping Blog: ESTA É A HORA : 15 DE MARÇO , 2015,...: Clipping Blog: ESTA É A HORA : 15 DE MARÇO , 2015, 14 HORAS !!! : ESCLARECENDO : MÍDIA PRODUZIDA ORIGINALMENTE EM PPS, UTILIZANDO O EXTI...

quarta-feira, 26 de março de 2014

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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Mídia Sem Máscara - A hora e a vez da ruptura sistêmica

Mídia Sem Máscara - A hora e a vez da ruptura sistêmica
Você pode dizer que eles nunca conseguirão dar um golpe de estado, mas é o que eles pregam, é o que sonham, e isso deveria levantar algumas questões sobre a adequação deste partido e de outros com as mesmas idéias no jogo democrático que eles claramente desprezam.
O moleque fedorendo e barbudo de ontem é o Caetano vestido de Black Bloc e o Chico Buarque defendendo a censura de hoje.

Como é impossível entender o que se passa no país dos Black Blocs através dos filtros da grande imprensa, é importante recorrer a fontes primárias como esse 
vídeo divulgado em 13 de junho pelo “Juntos”, o braço do PSOL que vai para as manifestações vestido de amarelo. É muito importante que a opinião pública entenda quem são essas pessoas que tomaram conta das ruas do Brasil, essa gente produzida aos milhares pelas universidades sustentadas com seu dinheiro. Não espere que produzam um prêmio Nobel, elas têm mais o que fazer.
Um dos psolentos do vídeo fala que é do “tribunal popular”, seja lá o que isso signifique, mas quem é minimamente alfabetizado e já estudou Revolução Francesa sabe que o termo não traz boas lembranças. Um outro está vestindo uma camisa com uma imagem de Lênin, o idealista que montou o regime responsável pela morte 30 milhões de pessoas do próprio povo e por 18 milhões enviados para campos de trabalho escravo. O leninista diz que vivemos um “prelúdio de um novo tempo, o tempo de rua”. O dia 13 de junho, data em que o vídeo foi postado, é exatamente aquela quinta-feira em que o caldo entornou em São Paulo e a jornalista da Folha foi atingida no olho por uma bala de borracha.
Tribunal popular
Você acha, sinceramente, que vai sentar com uma pessoa dessas e ter uma conversa racional sobre política? Você acha que é uma batalha de argumentos, que é só segurar aumento de passagem de ônibus que eles vão trabalhar, estudar ou produzir alguma coisa para o país?
O discurso deles no vídeo segue uma cartilha, nada é gratuito ou por acaso, é tudo para, no limite, justificar o quebra-quebra e a “ruptura sistêmica”. Não acredita? Leia outra fonte primária: o programa oficial do PSOL, no próprio site do partido. Diz o texto: “a lógica egoísta e destrutiva da produção, condicionada exclusivamente ao lucro, ameaça a existência de qualquer forma de vida. Assim, a defesa do socialismo com liberdade e democracia (sic) deve ser encarada como uma perspectiva estratégica e de princípios. Não podemos prever as condições e circunstâncias que efetivarão uma ruptura sistêmica.”
Traduzindo:
- O capitalismo liberal para esses democratas ameaça a existência de qualquer forma de vida! Se você defende o sistema de livre mercado, você é um perigo para todas as espécies do planeta. Será essa a base da acusação no seu julgamento do tribunal popular? Se for, boa sorte para você.
- Eles não podem prever como se fará a derrubada do sistema atual, ou melhor, qualquer forma de ação revolucionária é aceitável para fazer a “ruptura sistêmica”. Isso não é uma teoria conspiratória, é o que defende o programa do partido do Jean Wyllys e do Marcelo Freixo. Nem o Hezbollah diria melhor.
Screen Shot 2013-10-16 at 12.54.38
Você pode dizer que eles nunca conseguirão dar um golpe de estado, mas é o que eles pregam, é o que sonham, e isso deveria levantar algumas questões sobre a adequação deste partido e de outros com as mesmas idéias no jogo democrático que eles claramente desprezam.
O fato é que esse pessoal hoje sai das péssimas faculdades brasileiras e vai para Folha, para o Estadão ou para o UOL escrever as notícias que você lê, para ONGs e movimentos sociais que influenciam diretamente as políticas públicas, e enquanto esse ciclo vicioso não for quebrado só vai piorar. Há uma guerra ideológica que precisa ser enfrentada porque ameaça a democracia e se só um lado está jogando, o resultado final não pode ser surpresa. Acha exagero? Leia essa matéria do O GLOBO que mostra que o PSOL é o partido preferido dos jornalistas.
Jean-Wyllys-Quando eles passam dos 40 anos de idade, estes radicais vão dirigir as redações dos jornais, as áreas de humanas das universidades, os núcleos de conteúdo das TVs ou escrever roteiros de novelas, e são reverenciados e festejados pela cultura.
É o que vivemos hoje com a geração forjada nos anos 60/70 no Brasil. O moleque fedorendo e barbudo de ontem é o Caetano vestido de Black Bloc e o Chico Buarque defendendo a censura de hoje. O vídeo do PSOL não é caseiro, ele tem produção e edição profissional, custou dinheiro, tem alguém pagando isso e não é pouco. Esse pessoal não está para brincadeira, como você pode ver em qualquer manifestação. Eles querem ver o circo pegar fogo e estão contando com a conivência ou com a negligência dos palhaços e do respeitável público.
Se você der os ombros e esquecer o assunto, o assunto um dia vai lembrar de você. Como disse Churchill, “houve um momento em que um simples memorando teria impedido Hitler.” Os problemas não somem porque são ignorados, você descobre isso em algum momento da vida, de um jeito ou de outro.


Publicado na 
Reaçonaria.
Alexandre Borges é diretor do Instituto Liberal.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Clipping Blog: NAMORANDO COM O SUICÍDIO

Clipping Blog: NAMORANDO COM O SUICÍDIO: Namorando com o suicídio Autor: J.R.Guzzo Veja - 28/01/2013 Se nada piorar neste ano de 2013, cerca de 250 policiais serão assassinad...

sábado, 17 de novembro de 2012

Mídia Sem Máscara - Eu sou um conservador

Mídia Sem Máscara - Eu sou um conservador


Os principais países desenvolvidos têm, todos eles, partidos conservadores que disputam e vencem eleições. Por que será que só aqui, no Brasil, os conservadores relutam em se admitir como tal?

Embora conservadorismo, na cabeça das pessoas, lembre mofo e bolor, a verdade é que o conservadorismo está voltando a ser levado a sério por aqui. E quais são as principais teses defendidas pelos conservadores?
A principal delas afirma que é muita pretensão a nossa de querer virar o mundo do avesso, ignorando toda a experiência, os ajustes e o processo de tentativas e erros obtidos em milênios de civilização. Tal abandono do passado pode ser útil no que tange às ciências exatas, mas revela-se quase sempre desastroso quando aplicado às ciências humanas. Na História humana, os grandes avanços sempre se deram pela evolução, nunca pela revolução. As grandes revoluções, como a francesa ou a russa, sempre foram muito eficientes na derrubada das instituições que já existiam, mas nunca souberam como pôr outras melhores em seu lugar.
Outra tese, dentre as principais, se resume numa frase proclamada por sir Isaac Newton (1643-1727): àqueles que lhe indagavam como conseguira formular a Teoria da Física Mecânica, respondia que nada fizera de mais, apenas "se debruçara sobre os ombros de gigantes". Queria o cientista inglês dizer que nada daquilo seria possível se não tivesse contado com o conhecimento acumulado por todos os que o precederam. Os conservadores também pensam dessa forma. A realidade tal qual a conhecemos é o produto de milênios de tentativas, erros e acertos. Sendo assim, é muito pouco provável que nós, modernos, venhamos a fazer alguma grande descoberta em termos de moral ou de política.
Filósofos de araque existem em profusão. Todos pregam mudanças radicais na natureza humana. E foram justamente eles - que prometiam a perfeição do homem e da sociedade - que transformaram grande parte do século passado num verdadeiro inferno terrestre.
O ceticismo quanto à perfeição humana é outro aspecto importante do pensamento conservador. Nós conseguimos realizar mudanças na natureza exterior. Já a natureza humana se tem mostrado praticamente imutável. O conservador não acredita que exista algum homem tão acima da média, tão isento de paixões e preconceitos que se possa com tranquilidade entregar-lhe um poder sem limites. Assim sendo, a melhor forma de governo é mesmo a democracia. Esta dispõe dos freios e contrapesos (checks and balances) necessários para refrear logo no nascedouro qualquer tentação totalitária. A sociedade possui anticorpos. E eles são acionados sempre que há exorbitância de poder.
O grande autor moderno do conservadorismo é Russell Kirk (1918-1994) e no passado foi Edmund Burke (1729-1797). Este último, além de ter sido o grande precursor dos princípios conservadores, notabilizou-se por ter escrito um livro intitulado Reflexões sobre a Revolução em França, no qual, ainda no calor dos acontecimentos, defende ardorosamente o sistema político inglês - de reformas graduais, em contraposição ao extremismo e às exorbitâncias que ocorriam do outro lado do Canal da Mancha. Depois que Luiz XVI foi guilhotinado, em 1792, Burke voltaria ao tema, argumentando que os franceses teriam cometido um erro político gravíssimo: "Vocês ainda haverão de se arrepender amargamente deste ato. Ao invés de fazer como a Inglaterra, que em 1688 promoveu todas as reformas necessárias pacificamente e ainda com a chancela real, vocês, franceses, acabam de proclamar oficialmente a sua orfandade. E viverão eternamente carentes de um rei". Os fatos demonstraram que Burke tinha razão. Depois de Luiz XVI, os franceses viriam a proclamar diversos reis e imperadores, sendo o mais importante deles Napoleão Bonaparte.
Nos dias de hoje, quem passa por cima do viaduto d'Alma, em Paris, encontra uma espécie de santuário onde muitos acendem velas e pedem milagres. Nesse mesmo local, uns 20 metros abaixo, num acidente de automóvel, morreu Lady Di. Diana Frances Spencer não era uma santa (longe disso), mas foi uma princesa. Seria mais um indício de que Burke tinha razão?
Voltando às principais teses conservadoras, um conservador de verdade não tolera o relativismo moral. Ainda no século passado, terríveis consequências sofreram os povos onde ocorreu um colapso da ordem moral, onde os cidadãos transigiram quanto a isso. A moral há de ser uma só, seja ela fruto de revelação divina ou tenha sido forjada pela convenção humana. Ela é o resultado de um arranjo costumeiro, cuja origem data de tempos imemoriais. E é ela que nos preserva do abismo.
O pensamento conservador, nos dias atuais, vem ganhando relevo justamente porque os recursos naturais estão se tornando exíguos. Três décadas atrás ninguém demonstrava a menor preocupação com esse tema. Agora ele ocupa o proscênio das preocupações humanas. O polêmico aquecimento global e o esgotamento de matérias-primas importantes põem na ordem do dia a necessidade premente de preservar. E preservar é a principal bandeira do pensamento conservador - que não cuida somente de instituições sociais, mas abrange tudo o que diz respeito à humanidade.
Quem imaginava ser a ecologia uma bandeira de esquerda percebe agora que não é. Foi o comunismo, aliás, o regime político que mais sacrificou a natureza. Tudo em nome do progresso, conceito que vem sendo cada vez mais questionado pela opinião pública esclarecida. Os adeptos mais exaltados do pensamento conservador não acreditam na existência de progresso algum. Eles defendem, sim, mudanças graduais.
Os principais países desenvolvidos têm, todos eles, partidos conservadores que disputam e vencem eleições. Por que será que só aqui, no Brasil, os conservadores relutam em se admitir como tal?
Se o problema é a falta de alguém que puxe o cordão, tudo bem. Eu me declaro um conservador. E não tenho por que ter vergonha disso.


João Mellão Neto, jornalista, foi deputado, secretário e ministro de estado.

Publicado no jornal O Estado de São Paulo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

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domingo, 1 de julho de 2012

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sexta-feira, 29 de junho de 2012

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segunda-feira, 11 de junho de 2012

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quinta-feira, 26 de abril de 2012

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segunda-feira, 2 de abril de 2012

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A Nação Que Se Salvou a Si Mesma: Reader: Reprodução do artigo especial original, veiculado pela revista R...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tucanos poderiam ser hoje a ala esquerda do PT!

Tucanos poderiam ser hoje a ala esquerda do PT!

09/12/2011

às 22:48

Tucanos poderiam ser hoje a ala esquerda do PT!

Todos sabem o que penso sobre a passagem de FHC pela Presidência da República. Não retiro uma só palavra do que escrevi até hoje. Eu o considero mais importante para a história do Brasil do que Getúlio Vargas — pelos menos para os meus valores. Não vou repisar argumentos. De resto, a engenharia econômica do Plano Real, que esteve sob o seu comando, foi única no mundo e responde, em essência, pela relativa estabilidade do país num mundo em crise. Se temos alguns problemas sérios, e temos, deve-se ao que não se fez depois. Assim, viva FHC!, homem de notável inteligência. Mas também tenho discordâncias severas, algumas já expressas aqui mais de uma vez.

Hoje foi um dia um tanto infeliz para o PSDB, menos pelos episódios em si do que pelo futuro para o qual acenam. Em Minas, vemos o governador Antonio Anastasia e o senador Aécio Neves acenando explicitamente para Fernando Pimentel. No caso do governador, a justificativa toca as raias do absurdo. Além de “amigo”, diz, “Pimentel é mineiro”. Bem, ser mineiro não é, que se saiba, atestado de inocência. “Ah, olhem o Reinaldo, um serrista, falando…” Esse tipo de consideração, acho, já está desmoralizada.

O principal partido de oposição deveria ter claro que o PT, o maior partido do país, tem plenas condições de defender um dos seus, ainda que as duas legendas tenham se unido na disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte para eleger Márcio Lacerda. Há uma diferença óbvia de comportamento entre esses tucanos e o conjunto dos petistas no trato com os adversários. Ah, sim: sou especialista em enfrentar “correntes na Internet”. Não adianta vir com aquela cascata contra paulistas que não dou a mínima. Agora a sabatina.

A Folha “sabatinou” hoje FHC, que está lançando o livro “A Soma e o Resto - Um Olhar sobre a Vida aos 80 Anos” (editora Civilização Brasileira). Não li ainda. Lerei e estou certo de que vou gostar de muita coisa. Mas, definitivamente, não gosto do que leio sobre a sua entrevista. O ex-presidente fez, sim, críticas à forma como o PT conduz o governo, atacou o aparelhamento, apontou o que não funciona etc. Nesse particular, repetiu a parte virtuosa de sua entrevista ao programa Roda Viva.

Ocorre que, e o próprio ex-presidente tocou nesse aspecto ( insuficientemente tratado até onde li, mas não posso assegurar porque não estava lá), o PT bateu a carteira da agenda social-democrata e, se querem saber, mesmo do que havia de mais “liberal” na atuação do PSDB. E o fez sem qualquer movimento propriamente de conversão ideológica. Para todos os efeitos — eis um escândalo, se me permitem, ideológico —, os petistas ainda se dizem socialistas etc. e tal. Não são, obviamente. Como tenho escrito aqui reiteradas vezes, do socialismo mesmo, eles só conservam a visão autoritária da política, quiçá totalitária.

Mensalão
FHC gosta de pensar com largueza. Antes de ser político, é um intelectual, que faz reflexões ainda inacabadas em voz alta, erro que os “intelequituais” do petismo não cometem. Sempre atuam como… políticos! Ao comentar o episódio do mensalão, o ex-presidente afirmou que o ex-deputado Roberto Jefferson “teatralizou” a denúncia. Está, obviamente, se referindo a certos e inegáveis dons histriônicos de Jefferson, que, suponho, nem ele próprio negue. Ocorre que FHC é presidente de honra do PSDB. Eu corto as duas mãos se a frase não for incorporada à defesa dos réus do mensalão. “Teatralização” será entendida como “falsificação”, “exagero”, “mera representação”. E não foi um “deles” a dizê-lo, mas uma voz da oposição. Em uma palavra e um ponto: desastroso!

O tucano também afirmou o que já se sabia: recebeu o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, quando parecia inexorável que se caminhasse para o pedido de impeachment. Negou que tenha havido um acordo, mas deixou claro, sim, que o PSDB tirou o pé do acelerador. Insiste ainda hoje que o eventual impeachment de Lula teria cindido um país, teria sido um trauma político etc. Trata-se, temos de ser fiéis à história das idéias, do FHC de formação esquerdista a falar, não aquele que escolheu tirar o país do atraso econômico-institucional. A tese é ruim de doer. Em primeiro lugar, não dá para adivinhar o que seria. Em segundo lugar, ofensa à democracia foi a tentativa de comprar o Congresso e a compra efetiva de partidos com porteira fechada. Mais: ao sobreviver ao mensalão, o PT se colocou como um partido acima do bem e do mal. Os critérios morais passaram a ser ainda mais lassos.

FHC sugere que se fez ali uma escolha. Ora, não escapará a ninguém que essa escolha comporta uma boa dose de paternalismo. Em nome, então, da não-cisão, uma suposição, escolheu-se um caminho que ignorava as leis. Ruim! Lula sobreviveu, sim, ao mensalão, mas não exatamente para soldar uma fratura. Ao contrário: nascia ali, de forma decidida, a guerra do “nós” contra “eles”. E o próprio FHC era a besta-fera do passado. “Ora, se ele não se importa, Reinaldo, por que você vai se importar?” Ele sabe o que faz de si. Ocorre que foi transformado numa espécie de símbolo do não-petismo. O governo petista passou a usar a estrutura do estado para liquidar a divergência.

Confronto de valores
Ao responder ontem a um subintelectual falastrão, lembrei um texto que texto que escrevi na última edição de VEJA do ano passado sobre aquela que considero ser a saída das oposições. Não é “a” resposta, claro! É só a “minha” resposta. Ou o Brasil reinventou a democracia ou está com algum problema. No mundo inteiro, existem partidos chamados “conservadores” que disputam o poder em igualdade de condições com os ditos “progressistas”. É esse equilíbrio que tem garantido as boas conquistas do regime democrático.

Não no Brasil. FHC falou na sabatina da Folha, na prática, ainda que com um volteio retórico aqui e ali, em favor da descriminação das drogas e do aborto, agenda que nem o PT assume claramente porque sabe que ela se choca com a opinião da maioria do povo brasileiro. Notem bem: se é isso o que FHC pensa como intelectual, que diga! Não serei eu a cobrar dele que afirme o contrário do que pensa. Uma coisa é certa: ele é uma das principais referências do PSDB, e a esmagadora maioria da parcela da população afinada com esse discurso vota no… PT!!!

No que respeita ao ordenamento propriamente econômico, não há diferenças entre PSDB e PT. Eu diria mesmo que, personalidade a personalidade, há pessoas no partido de Lula que estão muito, só para ficar em termos consagrados, “à direita” de alguns tucanos. No que diz respeito à agenda dos costumes, bem mais importante para a democracia e para a disputa eleitoral do que parece, um FHC — e ele não seria o único — se posiciona, para ficar na nomenclatura consagrada, à esquerda do próprio PT ou, quem sabe, do Apedeuta. Procurei: não há uma só declaração do Babalorixá que flerte com a descriminação do aborto, por exemplo, ainda que a política do partido caminhe nesse sentido. A própria Dilma, que fazia a defesa aberta dessa agenda, teve de mudar durante a campanha.

Nessa toada, esses que estão hoje na oposição não voltarão ao poder — a não ser que haja um desastre na economia, o que ninguém quer — enquanto insistirem em disputar o mesmo espaço do PT. A conversa de que “eles roubaram a nossa agenda” é inútil. É verdadeira, sim! A verdade na qual poucos acreditam costuma ser de uma danada ineficiência, não é? Vejam o caso da Cassandra, coitada!, que saiu da mitologia para ser difamada na metáfora. Sempre que alguém faz uma previsão meio catastrofista, dizem: “Esse é uma Cassandra”. Ocorre que a coitada sempre estava certa; sempre previa o que iria acontecer. Mas uma maldição de Apolo fazia com que não acreditassem nela… Era a chamada verdade inútil. Se os troianos a tivessem ouvido, não teriam levado aquele cavalo dos gregos para dentro da cidade. Mas levaram…

PSDB ocupa espaço da direita
Tenho, sim, grande admiração por alguns tucanos, FHC entre eles. Mas nunca fui um deles, como muitos deles, aliás, fazem questão de também deixar claro. Na extinta revista Primeira Leitura, e o PSDB ainda estava no poder, escrevi um texto em que afirmava que o Plano Real, e só ele, tinha dado duas eleições presidenciais aos tucanos. A população votou, basicamente, no fim da inflação. Aloizio Mercadante e Maria da Conceição Tavares fizeram ao país o favor de convencer Lula e a cúpula petista de que o plano seria um desastre. Assim, queridos, vamos homenagear os dois com um pequeno aplauso: ao convencerem o Apedeuta a se colocar contra o sentimento da maioria, impediram o PT de chegar ao poder. Graças a Deus!

Quando o PT mudou o discurso e passou a atuar com a agenda econômica do adversário, mas investindo pesado no confronto de valores, o comando do PSDB se perdeu e não se encontrou até agora. Vivemos hoje uma situação estranhíssima. Se notarem, o PSDB ocupa o espaço que, nas democracias consolidadas, é ocupado por partidos conservadores, que o mundo chama, sem qualquer carga de preconceito, “de direita”. Ocorre que o PSDB não é… de direita! Resultado: ficam todos embolados no meio de campo, fazendo um discurso dito “progressista”, com a diferença de que os petistas, e nisso continuam esquerdistas, dominam os aparelhos dos ditos “movimentos sociais”.

Os conservadores acabam, com freqüência, fazendo “voto útil” nos tucanos, embora, na prática, estes acabem se confundindo com os petistas. E as coisas ficaram piores depois que os petistas decidiram se confundir com os tucanos. Nessa toada, o PSDB nem se torna uma alternativa de poder nem permite que surja uma alternativa de poder.

Lá vem pancada
Aviso aos navegantes: os encapuzados da USP estão bravos e me xingam.; os amigos dos encapuzados estão bravos e me xingam; os petistas estão bravos e me xingam… E sei que agora virão os tucanos bravos, especialmente os de Minas. Não me importo. Tampouco me constranjo. Não escrevo para agradar tucanos, petistas ou sei lá quem. Escrevo o que acho que tem de escrito. Se acho que FHC, que tenho em altíssima conta, errou, então digo: “errou!”.

Às vezes, tenho a impressão de que os tucanos, se aceitos, poderiam se integrar ao PT. Comporiam hoje a sua ala… esquerda!

Por Reinaldo Azevedo



Tucanos poderiam ser hoje a ala esquerda do PT!

Tucanos poderiam ser hoje a ala esquerda do PT!